Histórias que inspiram: De vaqueiro à conquista do diploma universitário

Fonte: http://www.defensoriapublica.go.gov.br/depego

Em meio às imensas desigualdades sociais existentes no Brasil, a solidariedade pode transformar vidas. Raimundo José de Oliveira Barros, 42 anos, carrega uma dessas histórias em que percebemos que sem o auxílio de pessoas que se sensibilizem com a dura realidade do outro, nenhuma melhoria social é possível. O piauiense de União (cidade com pouco mais de 40 mil habitantes, localizada a cerca de uma hora de Teresina) teve seu futuro transformado por duas ex-patroas que possibilitaram de diferentes formas seu acesso à educação, proporcionando um novo destino para o garoto que aos sete anos era vaqueiro e tinha essa profissão como única perspectiva de futuro.

Hoje advogado e professor no Centro Universitário de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Unidesc) – instituição parceira da Defensoria Pública de Goiás no Defensoria Itinerante, olhando para trás nem mesmo Raimundo acredita que conseguiu trilhar o caminho até ali. Aos sete anos de idade morava com a família na zona rural de Teresina. Ele e seus sete irmãos trabalhavam na fazenda e estudavam em escola da região. Poucos anos depois seus pais se separaram e a mãe decidiu se mudar dali. Na época Raimundo e seus irmãos estavam finalizando a 4ª série. “Como eu gostava muito de estudar, minha mãe me deixou na fazenda morando com meu avô. A escola era mais perto dessa propriedade do que de onde ela moraria com meus irmãos”.

Quando o avô assumiu a criação de Raimundo ele decidiu que o garoto, na época com dez anos, deveria largar a escola e se dedicar ao trabalho como vaqueiro. “Ele disse que para filho de pobre só bastava escrever o nome”, comenta o advogado. A rotina do menino era acordar às 4 horas e cuidar do gado. Quando completou 14 anos seu avô adoeceu e ele assumiu toda responsabilidade pelas tarefas da fazenda. O sonho de estudar foi ficando cada vez mais distante. “Foi muito ruim, porque estudar era meu sonho. Eu acordava às 4 da manhã para tirar leite, cortar capim, fazer ração… E eu sempre pensava que o estudo iria me proporcionar uma saída, mas ele [avô] não deixou”.

Quando completou 20 anos, Raimundo conseguiu um emprego em outra propriedade, onde recebia meio salário mínimo. A dona da fazenda, Luci, permitiu que ele tivesse uma jornada de trabalho mais “flexível” e ele pode ter as tardes livres para retornar à escola. Trabalhava das seis da manhã ao meio dia, estudava à tarde e retornava ao trabalho das 18 até meia-noite para compensar o tempo destinado aos estudos. Foi assim que ele concluiu o ensino fundamental e médio.

Alguns anos depois seu irmão se mudou para Brasília e o chamou para que ele tentasse a vida no Centro-Oeste do Brasil. Eles se mudaram para a periferia de Taguatinga. Raimundo resolveu encarar o desafio e começou a trabalhar como porteiro da Unidesc em Brasília. Foi onde conheceu a professora Elizabete Carvalho. Por meio dela, ele foi transferido para a unidade de Luziânia e conseguiu bolsa para ingressar no curso de Direito. Estudava no período da manhã e trabalhava das 13 às 22h30.

Ele foi o primeiro de sua família a conquistar um diploma de nível superior. Hoje casado e com um filho de 16 anos, Raimundo tem certeza que é possível construir um futuro diferente do que muitas vezes parece um destino inevitável. As oportunidades que surgiram a partir da solidariedade, bem como sua determinação para seguir seu sonho, foram fundamentais para sua mudança de vida. O acesso à educação foi a base para essa transformação. “Tem hora que eu fico olhando, às vezes estou lá no Fórum e penso: em 1994 eu estava afastado da escola. Tem horas que eu nem acredito, será que sou eu que estou aqui mesmo?”, avalia. Ele complementa, que em nenhum momento desistiu da escola. Agora, aos 42 anos acredita que ainda tem muito a trilhar nos estudos. O próximo passo? “Entrar no mestrado”

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